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Museu do Estrangeiro

2017
Publicado em
02.10.2017
Última atualização
23.09.2025
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Imagem de peça do projeto

E​m linhas gerais, eu percebo que meu trabalho parte de uma pesquisa em arquivo​, então de um trabalho de campo​ e, num terceiro momento, trata de como apresentar essa​ pesquisa. Tenho pensado meu trabalho a partir de dois triângulos: no primeiro, as pontas são formadas por: pesquisa em arquivo, ​expedições​/caminhadas e exposição. No segundo, as pontas são formadas por: publicação/livro, site/arquivo e conversas/debates. Na Bienal da Bahia, acho que consegui realizar todas essas etapas do trabalho, mas nem sempre isso acontece. Depois de conhecer o​ Juraci Dórea​ e a forma como ele documenta tudo, acho que isso ficou mais latente em mim. Nas exposições ou, por exemplo, no site, eu tenho documentado tudo: imagens dos trabalhos, os textos de referência, os vídeos, os links.​ ​Nas artes visuais, tem um caminho para os artistas que é passar o ano todo trabalhando para produzir obras para uma exposição. No meu caso, apesar de a exposição amarrar e dar visibilidade à pesquisa, ela não é o final do trabalho, nem é ​​mais importante que as outras partes. Depois da exposição, tem ainda todos esses outros agenciamentos – a publicação, as conversas, as oficinas, os vídeos e o site​ (arquivo),​ que é o repositório de todo o projeto.

 

Apesar da maior procura do país por estrangeiros, a legislação vigente ​aqui ​sobre o tema é bastante defasada. O que está em vigor atualmente é o ​Estatuto do Estrangeiro​, de 1980, considerado uma herança da ditadura militar e inspirado no paradigma da segurança nacional, que impõe uma série de ​controles burocráticos e restrições às possibilidades de residência no Brasil.

O ​Estatuto do Estrangeiro​, entre muitas coisas, veta ao imigrante o direito ao voto, o direito de se manifestar e se organizar politicamente, o direito de ser o proprietário de uma empresa e o direito de produzir qualquer tipo de conteúdo de mídia. Museu do Estrangeiro surgiu como um desdobramento de outras pesquisas que tenho realizado sobre a questão da migração Norte-Sul no Brasil. Como em Desterro e Campo Geral, o ponto central desse trabalho foi discutir a falsa ideia de um Brasil mestiço e cordial. O trabalho se desenvolveu a partir de uma série de entrevistas com imigrantes e refugiados que vivem no centro de São Paulo e da coleta de material impresso produzido pelas várias comunidades que vivem na cidade. Inicialmente, era uma pesquisa sobre a imigração em São Paulo, com os bolivianos e coreanos, mas que se expandiu para um projeto sobre migração em geral. Comecei a pesquisar muito sobre o processo de embranquecimento, voltei ao Nina Rodrigues e ao Estácio de Lima. Por conta do projeto Museu do Estrangeiro, recebi um convite para trabalhar com refugiados africanos e haitianos que moram na ocupação Hotel Cambridge, no centro. Essa ação na ocupação está ligada à minha pesquisa atual, a Frente de Trabalho. Quero trabalhar, especificamente, com as remoções nas grandes cidades e suas consequências – como, por exemplo, durante a Revolta da Vacina, no século passado – e as remoções durante a Copa do Mundo e as Olimpíadas nos últimos anos. A proposta é fazer uma espécie de censo dos refugiados para saber de onde e por que eles vieram para cá, qual a história deles.

 

Acho que a principal diferença de  uma pesquisa sobre imigração feita por um sociólogo ou antropólogo, e outra por um artista é na forma de apresentar ​essa​ pesquisa, um​ arquivo​. Essa é a imagem que busco​ ​desvelar. Para a expografia das minhas exposições, não faço um plano de​ ​montagem,​ ​não desenho um croqui. Reúno todas as coisas que ​coletei​ durante​ ​a pesquisa, inclusive o mobiliário​,​ levo para o espaço expositivo e vou organizando​ ​(as fotografias, os fac​-​símiles de documentos, os livros da minha biblioteca, os vídeos,​ ​os objetos).​ Em Campo Geral tem até o quadro negro com​ ​o giz. Nesses trabalhos, repito os mesmos elementos, o pallet com os livros, a caixa​ ​de guardar obras, os bancos de madeira, a mesa de trabalho com os cavaletes, as​ ​prateleiras; são todos mobiliários fáceis de construir que vou levando de uma​ ​exposição para outra. Tento​ fazer um contraponto ao lugar fechado da​ ​pesquisa acadêmica, que fica restrit​o​ ao espaço da universidade. De fato, uma coisa​ ​que eu penso muito é ​como fazer uma pesquisa-trabalho que tenha alguma função social​, e o trabalho artístico ​tem uma liberdade bem maior que um texto acadê​mico.

 

A participação em residências artísticas é​ fundamental. Minha pesquisa está diretamente ligada ​a​o trabalho de campo – pesquisa em arquivos​ e a história oral​ dos locais onde desenvolvo as residências.​ ​Tenho uma​ trajetória bem recente, ​uma das minhas primeiras residências ​foi em 2012, o ROAD um projeto de Residências Móveis do Capacete ​(RJ). Participaram comigo os artistas Bruno Jacomino, Lucas Sargenteli e Sofia Caesar numa viagem de carro de dois meses, do Rio de Janeiro até Belém e terminando em Brasília.​ A​ proposta ​era ​investigar cidades que deixaram de existir, ou que estavam em processo de deixar de existir, ou que achávamos que iriam se modificar tanto que deixariam de existir em algum momento. ​ ​M​ape​amos​ uma série de cidades​. Foi a​í​​​​​​​​​ que surgiu Canudos​​, foi meu primeiro contato com a cidade​; ​além de ter voltado ​depois de alguns anos ​ao sertão cearense, Quixeramobim​, Senador Pompeu​​ e ​Crato, que são cidades ​onde existiram os Campos de Concentração​ entre ​1915 e 1932​, ​durante ​períodos​ ​de ​seca,​ e criados pelo governo​ federal​ para abrigar e oferecer moradia e alimentação aos retirantes. Os “currais do governo”, como ficaram conhecidos, serviram também para conter a migração para as grandes cidades, como Fortaleza, transformando-se em lugares de confinamento e abandono dessas​ ​populações.​​ ​

 

Nessa Residência foi também meu primeiro contato com a Amazônia. Essa​ ​viagem lançou as bases​​ do projeto Desterro, ​que foi divido em três momentos “Cidade Partida​”​​, em Canudos​,​ “Campo Geral​”, n​o sertão cearense, e ​“Frente de Trabalho”, que é um projeto ainda em andamento​.​ Para mim, esses trabalhos estão todos conectados​ e são aprofundamentos e desdobramentos das mesmas questões.​

 

Depoimento baseado em entrevista de Ícaro Lira ao Espaço Pivô (Abril 2017)

Dados técnicos

Museu do Estrangeiro, 2017 | Instalação
Ícaro Lira

Diálogos sobre Arte, Migração e Trabalho | Residência Artística Cambridge

Ações VB
Outras conexões

Site do artista

 

Texto Um Museu no Bom Retiro, por Marta Mestre (BUALA, 2015) [port]

 

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