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Publicado em
21.09.2015
Última atualização
23.09.2025
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Still do vídeo
 

Still do vídeo

Albergue para crianças órfãs da guerra interna, Missão de Ocopa, Junín.
Fotógrafa Cecilia Larrabure (Arquivo pessoal de Cecilia Larrabure, 1998)

Néstor Cerpa Cartolini e sua esposa Nancy Gilvonio são retratados em Lima junto a seu filho em 1985. Em 1982 duas pequenas facções de extrema esquerda, o Movimento de Esquerda Revolucionária El Militante (MIR-EM) e o Partido Socialista Revolucionário Marxista Leninista (PSR-ML) deram origem ao Movimento Revolucionário Túpac Amaru (MRTA). Inspirados pela guerrilha guevarista latinoamericana dos anos 60 e 70 e a experiência armada do MIR em 1965, as colunas do MRTA, sob comando de seu lider Víctor Polay Campos, conseguiram se assentar no estado de San Martín e na faixa de selva dos estados de Junín e Pasco.
Fotógrafa Vera Lentz (Arquivo pessoal de Vera Lentz, 1985)

Fotógrafo Onésimo Bottoni (El Peruano, 26/8/1991)

Velório de uma das vítimas assassinadas durante o ataque subversivo de 16 de agosto de 1985 à membros da Marinha de Guerra como represália a sua presença na ilha penitenciária El Frontón. Supostos membros do Sendero Luminoso atacaram 60 suboficiais, técnicos e trabalhadores civis. Na luta morreram três suboficiais.
Fotógrafo Julián Espinoza (Jornal El Comercio, 1985)

Em fevereiro de 1983, em Ayacucho, uma mulher camponesa acompanha o corpo de um familiar vítima do conflito armado. Fotógrafo Manuel Vilca (La República, 13/2/1983)

Esposa do prefeito da acciopopulista (partido) de Pasco, em Cerro de Pasco, Victor Arias Vicuña, manifesta sua dor no enterro de seu cônjuge, assassinado em 8 de novembro de 1983 por membros do Sendero Luminoso.

Fotógrafo Gerardo Samanamud (Jornal El Comercio, 11/11/1983)

Manifestação nas imediações da Plaza Dos de Mayo, em 1989.
Membros do MRTA queimaram móveis da Universidade Nacional Federico Villareal como protesto contra as medidas econômicas do governo de Alan García.
Fotógrafo Alejandro Balaguer (Arquivo pessoal de Alejandro Balaguer, 1989)

María Elena Moyano durante um ato público em fevereiro de 1992. A tenente prefeita de Villa El Salvador e presidenta da Federação Popular de Mulheres desse distrito teve o valor e coragem de enfrentar o Sendero Luminoso, denunciando publicamente as manobras dos subversivos para controlar as organizações sociais de sua localidade. Defendeu o direito de seu povo de lutar pelas melhoras sociais em democracia e liberdade. Em 14 de fevereiro de 1992, Sendero Luminoso convocou uma paralisação armada. María Elena Moyano, junto a outras dirigentes de Villa El Salvador, fizeram um comício, desafiando-os. Em 15 de fevereiro um comando de aniquilação senderista a baleou em uma reunião social e dinamitou seu corpo.
Fotógrafo Gilmar Pérez (Revista Caretas, 1992) 

Em 26 de dezembro de 1980, vários cachorros mortos aparecem pendurados nos postes de luz do Centro de Lima. Os cães portavam cartazes com a inscrição “Teng Hsiao Ping, filho de uma cachorra”. Em vários jornais se falou sobre ameaças provenientes da máfia chinesa, mas na realidade se tratava da primeira mensagem do Sendero Luminoso (grupo de guerrilha peruano criado nos anos 60, com inspiração maoísta) na capital. Teng Hsiao Ping havia sido inimigo de Mao Tse-Tung e o grupo subversivo peruano o considerava responsável pela mudança do maoísmo ao capitalismo na China. Fotógrafo Carlos Bendezú (Revista Caretas, 26/12/1980)

“Creio que La huella (A pegada) pode ser algo político, mas a maneira como atua é diferente. O filme percorre as coisas, movendo o interior de pequenos detalhes, gestos ou sons. Move desde o que há de menor para gerar algo. 

A forma como está filmado, com esses movimentos de câmera bastante lentos, não é para ressaltar a dor, essa nunca foi minha intenção, senão talvez seja o tempo exato necessário que se tem de tomar para criar uma empatia com o drama que aí se revela; o tempo necessário para incorporar como espectador o drama das vítimas e produzir uma impressão que seja parte de uma mudança ou de um rastro.

Para fazer o filme consultei diversas vezes o Banco de Imagens recompilado pela Comissão da Verdade e da Reconciliação. O Banco reúne por volta de 1700 fotografias, provenientes de fontes bem diversas, como a imprensa, arquivos da igreja, dos militares, álbuns familiares ou álbuns de fotógrafos independentes.

A Comissão da Verdade e da Reconciliação foi um esforço realizado pelo estado peruano, em conjunto com diversas organizações e membros da sociedade civil, para compreender o conflito que vivíamos, um conflito extremamente doloroso. Sua criação só se tornou possível com a renúncia de Alberto Fujimori e a instauração de um governo transitório em que se tentava entender a guerra interna que assolava o Perú durante os últimos 20 anos. Guerra essa que deixou mais de 69 000 mortos, majoritariamente camponeses Quechuas vítimas de matanças e desaparecimentos forçados.

Para La huella, também escutei diversos depoimentos de familiares das vítimas nas Audiências Públicas realizadas em Ayacucho. Os depoimentos eram muito dolorosos e senti que não poderia trabalhar com eles como matéria direta. Diante da palavra do depoimento, sinto que não teria podido filmar nada. Decidi então ficar somente com as fotografias: ainda que também explícitas, a imagem me deixava uma margem de movimento, ou pelo menos de apropriação.  

Há uma postura ética muito importante, sobre como me aproximar dessas fotografias, como filmá-las. Não queria fazê-lo com uma postura de análise da história, nem de forma informativa, queria estar mais próxima da vibração que essas fotos produzem em mim, uma vibração que acho que tem a ver com o traumático, com reconhecer o humano nelas, o drama das vítimas. 

Para escrever as vozes que narram o filme, convidei José Pablo Baraybar, antropólogo forense que esteve bastante envolvido com as exumações e restituição de restos aos familiares das vítimas. Me pareceu ser um bom contraponto com as fotografias, já que sua voz era também um depoimento, mas não do ponto de vista das vítimas, senão como uma outra testemunha muito próxima e crucial para os familiares.

José Pablo tinha a visão de quem já havia visto de tudo, ou quase tudo, uma vez que havia trabalhado em diversos lugares em missões parecidas, como Sarajevo, Ruanda, Haiti e Somália. Acho que seu depoimento ajudou a revelar nas fotografias a sensação de vê-las pela primeira vez, de ser marcado por elas muito profundamente.

Como a voz de José Pablo contava em primeira pessoa, decidi que eu também faria o mesmo. As pessoas pensam que minha voz é também um depoimento, e não é verdade. Eu não vivi a perda direta de familiares e amigos durante esses anos. Ainda assim, me parecia que a primeira pessoa era o tempo correto, a primeira pessoa é o tempo do presente e do eu como enunciador, é o tempo de quem experimenta. E o texto narrado por mim está escrito segundo as impressões que tive olhando as fotografias.”


Tatiana Fuentes Sadowski em depoimento à PLATFORMA:VB (Julho 2015)

Dados técnicos

La huella, 2012 | Vídeo, 18’
Tatiana Fuentes Sadowski

90 Segundos (20/11/2000) - Renuncia de Alberto Fujimori

Matéria sobre a renúncia do preseidente do Peru Alberto Fujimori em 2000