El Museo Imposible de Las Cosas Vivas. Departamento de Integración PanContinental (Área de Contacto Triangular)
2014“Esta interação do Museu Impossível se desdobra como uma narrativa objetual intrincada sobre a recente disputa por fronteiras marítimas entre o Chile e o Peru, que resultou numa area triangular de terras devolutas de quase 37.000m2. A instalação reúne e intervém em imagens e objetos (por meio de elementos gráficos e assemblages) como uma forma de registro evocativa do estado atual dessa situação territorial, política e cultural.
O projeto recebe o seu título a partir da atual denominação jornalística dessa disputa. Uma imagem da mídia que mostra chefes de tribos locais comemorando a resolução da disputa (pela corte de Haia), foi o gatilho de interesse pela situação. Assim, os campos de mediação que atuam na formação da opinião pública - e seus derivados midiáticos - foram de fundamental importância para a definição das ações desenvolvidas no projeto, que fundem imagens e objetos pré-existentes, oriundos de camadas sociais, culturais e temporais diversas.
Fotografias e materiais impressos são conjugados com artefatos e objetos para evocar capítulos alternativos, efeitos colaterais e outros aspectos desse episódio. Juntamente com cada elemento da instalação existem etiquetas com detalhes (por vezes ficcionais) sobre os mesmos. Também são considerados no projeto alguns eventos históricos que circundam o caso, e que remontam à Guerra do Pacífico (século XIX), como forma de evocar uma arqueologia hipotética sobre a recorrência dessa situação real.
Aludindo à invisibilidade implícita dos artefatos relacionados ao caso, a construção desses objetos hipotéticos (entendido como artefatos e produzidos a partir de materiais locais e populares encontrados na vida diária em Lima), também podem ser relacionados indiretamente a momentos de (in)visibilidade sociocultural e política ligadas a essa longa disputa, que reverberam ao mesmo tempo regimes imperialistas e lógicas coloniais, executadas estranhamente entre povos ‘vizinhos’ e com histórias similares.
Toda a instalação opera conceitualmente a partir de momentos e situações relacionados a uma área de disputa, servindo como uma estrutura de exibição para 'artefatos docu-ficcionais', que permite uma reflexão sobre as difíceis relações políticas, e suas memórias, no continente.”
* O projeto resulta de um processo de um mês e meio de intensa pesquisa, sendo vinte dias em solo Peruano a fim de conduzir pesquisas e trabalhos de campo para gerar a atual formalização do projeto.
Beto Shwafaty em depoimento à PLATAFORMA:VB (julho 2015)
El Museo Imposible de Las Cosas Vivas. Departamento de Integración PanContinental (Área de Contacto Triangular), 2014 | Instalação
Beto Shwafaty
“Me interessa criar um processo artístico que se torne um campo composto por aspectos documentais, poéticos, estéticos e políticos. Um processo que permita a aproximação com uma determinada realidade a partir de pontos de encontro, de conjunções de significados e de momentos que, a princípio, não estejam totalmente conectados. Busco uma convergência de diversos tempos e espaços no trabalho, que geram novos aspectos sobre algo que já é parcialmente conhecido, corriqueiro, mas que merece talvez uma outra mirada, mais profunda, para nos mostrar aspectos encobertos pelo tempo.
A instalação se torna um dispositivo formado por diversos níveis de apropriações, que faz colidir e emergir uma série de questões de conflito, sem necessitar da evocação literal do fato histórico. Certos procedimentos e características museográficas e instalativas também trazem a tona uma certa tradição ligada à estratégias que minam, ou ao menos tornam desconfiáveis, os discursos históricos reforçados pelos regimes dos museus. Trabalhos como os de Fred Wilson, Hans Haacke e Marcel Broodthaers são referências no questionamento acerca desses discursos.”






