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Des Deux Côtes

2010
Publicado em
20.03.2026
Última atualização
04.03.2026
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Still de Des Deux Côtes (2010)

“O ponto de partida para Des Deux Côtes foi uma piscina subterrânea que descobri durante um inverno gelado em Montreal.”

"Em uma das paredes havia um enorme mural pintado à mão que retratava um trecho do litoral mediterrâneo."

“O ponto de partida para Des Deux Côtes foi o encontro com uma piscina subterrânea que descobri durante um inverno seco e gelado em Montreal.

A temperatura estava em torno de -13°C. Lembro de andar pelas ruas e começar a descer um lance de escadas que me levou a um úmido complexo de lazer, onde estava a piscina. Em uma das paredes havia um enorme mural pintado à mão que retratava uma paisagem do litoral mediterrâneo. Havia algo muito fascinante na presença e no posicionamento daquele mural em meio a um ambiente completamente desumano – a luz fluorescente e a água clorada no subsolo, sem janelas – que, ao mesmo tempo, era um lugar bem intimista. Havia muita pele à mostra, pessoas nadando, e aquele lembrete inconveniente de como a experiência de nadar poderia ser – ou deveria ser – em um pedaço ensolarado da costa mediterrânea, onde sopra o vento.

Eu adorava nadar naquela piscina, em grande parte por causa do mural. Ela evocava uma espécie de simulação na qual, ao se olhar para a imagem, o ato de nadar em uma piscina urbana se tornava animador. E, embora saiba que se vive uma simulação, se sente algo diferente; algo que ultrapassa a simples realidade da situação.

Por isso, acredito que a pesquisa para esse filme – o que chamo de ponto de partida – se deu simplesmente no fato de ter ido nadar aquele dia em Montreal, e ter encontrado um espaço que causava duas sensações opostas ao mesmo tempo. Essa experiência produzia uma espécie de efeito de 'puxa-empurra', a exemplo do que me ocorreu ao pensar na temperatura. A piscina subterrânea quente sob as ruas frias da cidade; a pintura de cores quentes sob a fria luz fluorescente. Comecei a pensar em calor e frio ao mesmo tempo, e imaginei uma chama queimando em um campo de neve.

Fogo e água. Queimar e congelar.

Experiências sensoriais que ocorrem no cotidiano – como a que vivi na piscina subterrânea – podem ser simples e imediatas, mas são frequentemente ligadas à ideias, emoções e processos mais complexos.

Diversas referências e experiências contribuíram para a criação deste trabalho: a estrutura do cinema narrativo, a filosofia da percepção, encontros casuais, a ciência da percepção, The Binding Problem ('problema da ligação' na neurosciência) e os processos cerebrais. Porém, a linha mestra para o seu desenvolvimento foi a observação da forma como limites contrários interagem, como: o saber e o não saber, o desejo e a repulsa, o masculino e o feminino, o seco e o molhado, o quente e o frio, a luz e a sua ausência.

A compreensão desses opostos se dá pela capacidade do intelecto em refletir e conceitualizar, porém a experiência direta se baseia no campo sensorial, e não depende necessariamente da reflexão consciente e ativa. Em outras palavras, me parece que possuímos uma sensibilidade à constante interação entre ideias e elementos opostos; uma sensibilidade que se forma na experiência sensorial, sem necessidade de uma conceitualização ativa. É difícil articular ou reproduzir esta capacidade, mas a arte é capaz de evocar esse tipo de experiência nas pessoas.”


Andrew de Freitas em depoimento à PLATAFORMA:VB (outubro 2013)

Dados técnicos

Des Deux Côtes (2010) | Andrew de Freitas

Vídeo | 3’58”, super16mm /8mm, BetacamSP, digitalizado, estéreo, cor, 16 : 9

 

Depoimento Andrew de Freitas | 18º Festival

O artista neozelandês fala sobre seu vídeo Des Deux Côtes, e de seu processo de criação