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A Idade da Pedra

2013
Publicado em
29.09.2015
Última atualização
23.09.2025
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Still do vídeo A Idade da Pedra

Still do vídeo A Idade da Pedra

Poster de A Idade da Pedra (2013)

Primeiro estudo para estrutura entrópica do filme (2012)

 

Anotações e cartografia fictícia para rota de filmagem, Goiás (2013) 

Anotações em L'Image Temps de Gilles Deleuze, Ana Vaz, 2013

Colagem, estudo texturas (2013)

Colagem, estudo tons (2013)

Maquete para escultura 3D, por Anne-Charlotte Yver (2013)

Maquete para escultura 3D, por Anne-Charlotte Yver (2013)

Maquete para escultura 3D, por Anne-Charlotte Yver (2013)

Maquete para escultura 3D, por Anne-Charlotte Yver (2013)

Estudo para composição (2013)

Estudo para composição (2013)

Estudo para composição (2013)

Primeira incrustação, por Philippe Cuxac (2013)

“A Idade da Pedra surge à partir de uma cosmologia textual e imagética desenhada entre a geo-ontologia e a ucronia, entre a matéria e a história, entre a utopia e seu infalível potencial distópico. Viagem ao planalto central aonde a epopéia Capital se fez, o filme é uma estratigrafia desta mesma epopéia. Como diz Clarice Lispector em seu texto sobre Brasília, 'o tempo no futuro já passou', e aqui o começo assinala um fim e o fim um re-começo. A Idade rejeita a cronologia linear e insiste em um movimento entre tempo geológico e histórico, mítico e prosaico. 

Em A Idade, Brasília torna-se monumento-Frankenstein de um futuro arcaico — algo que constrói-se ao se desfazer. Torna-se o todo do qual retiro apenas uma parte, uma situação à ser des-feita. O filme busca substituir a utopia pela entropia, o rígido pelo poroso, a plenitude pela parcialidade. 

Nesse processo, busco uma equivalência entre o homem e seu ambiente, entre a palavra-dita e a palavra-plano, entre o artifício e o natural — binaridades que buscam uma dissolução. O filme propõe uma reflexão premonitória sobre as questões ligadas à Antropocena, nominação geológica aonde o homem se reconhece como força transformadora da superfície terrestre. Diz-se que a Antropocena poderia ser medida a partir da chegada de Colombo nas Américas, do começo da aceleração capitalista, da hyper-exploração de recursos e da massificação de mortes. A Idade narra então uma versão fictícia desta epopéia delirante e espantosa do trabalho exploratório, colonial e missionário realizado em versões múltiplas e terríveis na história das Américas. 

O filme busca deformar a história para revelar o que ela esconde. Os cadernos de Luis Cruls, que registram a viagem exploratória ao local que viria a ser Brasília, transformam-se em vestígios pré-históricos, o explorador-narrador agora ausente não tem mais palavras, apenas o olhar — aprender a ver deve ser o verdadeiro trabalho do explorador. O texto de Lispector, Brasília, se transveste em planos sequências, em tempo suspenso, em palavras ditas por uma mestiça heróica que quebra a visão etnográfica do filme ao se confrontar à câmera. Quem a Terra pensa que é?, de Deleuze e Guattari, se torna uma ação, uma instrução cinematográfica. A câmera busca esculpir frases geológicas, percorre as estratas naturais e artificiais desta trajetória exploratória acreditando que todas as coisas falam — a terra fala ao homem, réplica furiosa. 

A Idade anuncia o começo de uma reflexão sobre a crise terrestre. Ele carrega a marca de um mundo pós-fim ou pré-começo. O filme busca ler na superfície terrestre sua história, ligando o homem à natureza, o antropos à ecologia e ainda um desejo de horizontalizar os elementos humanos e o não-humanos face a iminência de um deserto ecológico. Ele foi concluído em 2013, momento em que se re-ativaram de forma retumbante os protestos no Brasil. Assim, toda a reflexão inerente ao filme — sobre o estado piramidal no país, sobre a rigidez sedutora de um sistema estratificado — parecia ter se transformado em uma 'revolução molecular'. As imagens foram precisas: corpos espalhados sob os monumentos brancos e límpidos da Capital, fogo no Itamaraty, rostos mascarados, a confirmação do estado militar brasileiro, a congruência entre as linhas modernas e as linhas fascistas. A Idade da Pedra me pareceu ser uma premonição, uma espécie de pesadelo anacrônico, um delírio intuitivo de que algo estava podre no reino da (dis)utopia.”


Ana Vaz em depoimento a PLATAFORMA:VB (julho 2015)

Dados técnicos

A Idade da Pedra, 2013 | Vídeo, 29’
Ana Vaz

A Idade da Pedra (2013) trailer | Ana Vaz


 

Trecho do filme A Idade da Terra, O Câncer do Capitalismo (1980) | Gláuber Rocha

Referência da artista
 

La Région Centrale (1971), fragmento | Michael Snow 

Referência da artista

 

Zabriskie Point (1970), sequência final | Michelangelo Antonioni 

Referência da artista

Entrevista com John Smith sobre Blight (1996) 

Referência da artista

Outras conexões

"O filme se constrói também ao redor de uma série de afinidades e colaborações: a escultora Anne-Charlotte Yver, autora da escultura entrópica instalada ao centro do narrativa do filme, o diretor de fotografia, Jacques Cheuiche, a heroína anti-etnográfica, Ivonete dos Santos Moraes, o som direto de Chico Bororo, o empenho gráfico de Philippe Cuxac e os diálogos intrínsecos ao filme com Laura Huertas Millán, Louis Henderson, François Bonenfant, Maíra Gadelha, Nicolas Moulin, João Vieira Torres e Miguel Gomes. Todos estes diálogos são aproximações e afetos necessários ao processo líquido e contínuo deste e de todos os trabalhos, creio que só podemos trabalhar realmente se em imanência constante com as nossas diversas tribos." 

No acervo VB