Trilogia (Fonte 193, 475 Volver e Cruzada)
2016“Acho que comecei a me reconhecer como artista em uma residência na Cidade do Cabo, em 2003. Minhas primeiras intuições vieram do que hoje vejo como um duplo processo de deslocamento/reconhecimento. A série Capa Morada (2003) é um emblema desse momento, em que eu me misturava à cidade, me perdia e depois me achava no mundo sul-africano, ao mesmo tempo próximo e distante do meu. Eu, como uma mestiça brasileira, me reencontrei em meio às cores dos muros, às coisas do mercado, às pessoas da cidade. Não estando mais em meu lugar, reconheci um outro possível, que também era fruto de misturas. A minha criação surge nessa fusão com o mundo: para mim, a arte não está acima de nada, o artista não está acima de ninguém; tudo se mistura e essa impureza é que está na origem de meu processo criativo. Só podemos reinventar o mundo a partir dele mesmo — este é, aliás, o título de um dos meus últimos trabalhos, This same world over (2009).
Uma coisa que é importante no meu processo, antes de tudo, é o método, essa operação muito delicada que vamos desembolando com o tempo, em um movimento para fora e para dentro do mundo. No caos das coisas, encontro muitas de minhas proposições. No entanto, é necessário me afastar para tentar reorganizar formalmente essa desordem, o que me leva quase sempre a desenvolver algo como um novo sistema. É o que acontece nos planos aéreos da série Unus Mundus (Volta ao Mundo, 2004, e Confronto, 2005), em que a distância permite perceber uma nova dinâmica e dimensão das coisas, novos circuitos. As ideias surgem, então, em meio ao turbilhão de possibilidades da vida cotidiana, no movimento dos corpos (e aí desenvolvo toda uma pesquisa sobre o gesto), na atração por materiais de uso ordinário, em espaços intrigantes, na acumulação, na magia possível do mundo do trabalho. A organização formal implica na busca por um sentido para esse excesso vital, esculpindo-o lentamente até encontrar uma síntese possível para o desconforto original.
Minhas proposições implicam, na maioria das vezes, em um deslocamento da vida cotidiana do universo do trabalho. O engajamento de trabalhadores, especialistas, é parte fundamental do processo: trata-se de pedir a essas pessoas que realizem seus gestos cotidianos de trabalho em um outro contexto, sob novas regras, que muitas vezes são inexplicáveis para elas. A verdadeira poética talvez surja no momento em que esses participantes encontram uma possibilidade lúdica para esse gesto, numa dinâmica que pode ser emancipatória.
O extraordinário surge da repetição, como efeito da acumulação desta. Tento fazer com que a repetição não resulte no vazio e no ordinário, como na vida cotidiana do mundo do trabalho. Trata-se de inscrever essa repetição do gesto, o automatismo do trabalho, em uma nova dinâmica, em um novo sistema. O acúmulo desses gestos, desfuncionalizados, gera o extraordinário. O operador de máquina de 475 Volver (2009) repete a ação cotidiana de remover a terra, como Sísifo, em um arranjo que remete a uma ampulheta gigante ou ao símbolo de infinito. A repetição serve também como contagem do tempo, rastro, duração, tal como na montanha de papéis amassados de O Fazedor (2007).”
Depoimento editado em conjunto com a artista a partir de entrevistas publicadas em:
https://daniname.wordpress.com/2010/10/25/pipa-cinthia-marcelle/ e http://www.flashartonline.com/article/cinthia-marcelle/
(Junho, 2016)
Fonte 193
Cinthia Marcelle | 2007, Brasil | video | 5’40’’ em loop | cor, som
Fotografia, montagem e desenho sonoro - Bruno Vasconcelos
Som direto e desenho sonoro - Pedro Aspahan
Assistência de fotografia - Bernard Belisário
Bombeiros – Primeiro Sargento Quinoca, Segundo Sargento Nascimento, Cabo Antônio de Paula Almeida, Soldado Rogério Fernandes Barbosa, Cabo Rômulo Dias Barbosa, Cabo Clesio Rodrigues Lopes.
Agradecimentos – Departamento do Corpo de Bombeiros de Belo Horizonte, Tenente Thiago Miranda, Tenente Coronel Cleberson Pereira Santos, Major Clovis, Bienal de Lyon 2007, Jochen Volz, Bernardo Paz, Tiago Mata Machado, Wellington Luis Martins, Geraldo Magela de Paulo, Marcelo Marçal, Sara Ramo.
Apoio: Bienal de Lyon: The 00s – The History of a Decade that has not yet been named, França (2007).
Cortesia: artista e Galeria Vermelho
475 Volver
Cinthia Marcelle | 2009 | vídeo | 8’16’’ em loop | cor, som
Fotografia - João Dumans e Tiago Mata Machado
Som direto - Pedro Veneroso
Edição de imagem e som - Pedro Veneroso
Stills - Pedro Veneroso
ITAMINAS
Superintendente - Luiz Fernando Almeida
Comunicação - Ranner Amaral Maia
Engenheiro de Segurança - Alencar José do Carmo
Operador de Máquina - José Aloísio dos Santos
Encarregado de Máquina - Ronaldo Ferreira Silva
Agradecimentos - Rafael Barros, Luiz Fernando Almeida, Ranner Amaral Maia, José Aloísio dos Santos, Amaral, Alencar José do Carmo, Ronaldo Ferreira Silva, Mauro Santos.
Realização KATÁSIA FILMES
Apoio: ITAMINAS, Sprovieri Gallery
Cortesia: artista, Galeria Vermelho, Sproviery Gallery
Cruzada
Cinthia Marcelle | vídeo | 8’35’’ em loop | cor, som
Direção – Cinthia Marcelle e Tiago Mata Machado
Câmera - Maurício Rezende
Steadicam - Bernard Machado
Assistente de câmera e operador de plataforma - André Machado
Produção - Clarice Lacerda
Assistente de produção - Arnaldo Fabbri, Fabrício Marotta , Laura Berbert, Hortência Abreu, Túlio Batitucci.
Operador de Patrol - Antônio Helio
Pipeiro - Walter Santos
Som direto - Daniel Quintela
Assistente de som direto - Rodrigo
Desenho sonoro - Milagros Vazquez
Edição, tratamento de imagem e finalização - Maurício Rezende
Stills - André Machado, Gabriel Batista Campos, Thássia Alves
Direção musical - Fernando Santos
Pesquisa musical - Vilson Rodrigues de Oliveira
Músicos
Prato
Celso Viana, Leandro Cruz Najar, Marcelo Ricardo dos Anjos , Wesley Silva Moura
Tarol
Herli Preira da Silva, Ricardo Patrício Pereira
Bumbo
Eli Mossat, Geraldo Rodrigues do Bom Conselho
Trompete
Claudio Starlino de Oliveira, Geraldo Manoel Pereira
Trombone
Dácio Souza, Fabiano Andrade Oliveira
Bombardino
Bruno Dutra do Amaral, Elias Antonio da Costa
Tuba
Isaque Edson Macedo, Vilson Rodrigues de Oliveira
Agradecimentos
Manoel Geraldo Pereira (Banda Carlos Gomes), José Lima Costa (Filarmônica Primeiro de Maio), Victor (INPAR), Tiago Teixeira (INPAR), Lúcio (INPAR), Tiago Mata Machado, João Dumans, Ava Miranda, Márcia Miranda, Mauro Santos, Sara Ramo, Letícia Araújo Gontijo, Diego Lacerda, Eid Ribeiro, Samira Ávila (Valores de Minas), Marina Arthuzzi (Valores de Minas), Eloá Mata (Valores de Minas), Leda Quadros (SESC), Carla Honorato (Prefeitura de Sabará), Marney, Daniel Queiroz, Elisa (Secretaria de Cultura de Minas Gerais), Árvore em Preto e Branco.
Apoio - Construtora INPAR , Valores de Minas, Escola Municipal Anísio Teixeira
Realização - Katásia Filmes


