Quem não luta está morto!

Jaime Lauriano
publicado em 22.12.2016
última atualização 30.01.2017

Quem não luta está morto!*

A matriz das relações exploratórias e genocidas instalada e imposta pelos impérios coloniais aos povos originários instauraram um novo período histórico mundial, definido posteriormente como modernidade. Criadas a partir da aliança entre a burguesia mercantil e a nobreza, as missões invadiram as terras do “Novo Mundo”, devastando povos e instaurando novos costumes.

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Quem não luta está morto!*

 

A matriz das relações exploratórias e genocidas instalada e imposta pelos impérios coloniais aos povos originários instauraram um novo período histórico mundial, definido posteriormente como modernidade. Criadas a partir da aliança entre a burguesia mercantil e a nobreza, as missões invadiram as terras do “Novo Mundo”, devastando povos e instaurando novos costumes.

 

Essas estruturas de poder configuraram a experiência de constituição do continente americano, sendo revigoradas em diversos outros períodos históricos. As ditaduras civil-militares espalhadas pela América Latina, a segregação racial nos Estados Unidos da América e a guerra das Malvinas são apenas alguns dos exemplos de como a atualização da violência colonial está fortemente presente na sociabilização dos países americanos e em seus atuais conflitos e disputas: polícia versus população negra; poder latifundiário versus indígenas e populações tradicionais; serviços de imigração versus imigrantes; especulação imobiliária versus movimentos de luta por moradia etc.

 

Os movimentos que lutam pelo direito à moradia digna no Brasil são um exemplo dessa dicotomia contraditória. Luiz Kohara, educador popular e secretário executivo do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, afirma que a origem desses movimentos está intimamente ligada à abolição da escravidão no país e à ausência de políticas públicas para incluir essa população na sociedade. Os refugiados e imigrantes que chegam ao Brasil atrás de novas oportunidades também acabam integrando esses grupos diante da falta de serviços eficientes que contemplem o movimento de imigrantes no país.

 

Atravessados por estas experiências sociais, alguns artistas dedicaram grande parte de sua produção artística para investigar a violenta formação territorial e cultural imposta pela união das novas “nações”. Em As pérolas, como te escrevi, vídeo de Regina Parra, nos deparamos com imigrantes da Bolívia, Peru, Colômbia, Argentina, Congo e Guiné lendo, em português, trechos da carta Mundus Novus, de Américo Vespúcio. Ao realizar essa operação, a artista evidencia como as violências que efetivaram o processo de “invenção da América” ainda continuam a pautar a construção das sociedades no continente americano. Já em Centroamerica Now, Regina Aguilar utiliza diversos recursos como trechos de noticiários, depoimentos curtos, fragmentos de discursos políticos e corpos das vítimas da violência para protestar contra o assassinato de mais de mil jovens em Honduras ocorrido nos últimos anos.

 

Invertendo a ordem de dominação Europa versus Novo Mundo, a década de 1960 presenciou um novo tipo de dominação se espalhar no continente. Financiadas pelos Estados Unidos da América, as ditaduras militares revigoram as estratégias de violência e dominação dos corpos instauradas no período colonial. Em seu documentário Clandestinos, que revisita o final dos anos 60, Patricia Moran apresenta a resistência, sonhos, ideais, medos e erros dos jovens que lutaram por igualdade social e tiveram seus direitos de liberdade negados nesse sombrio período histórico brasileiro.

 

Símbolo e monumento do Modernismo brasileiro, a cidade de Brasília é problematizada em Forma Livre, vídeo da artista Clara Ianni. A partir de croquis e áudios de entrevistas em que os arquitetos Oscar Niemeyer e Lucio Costa são interpelados sobre o massacre de trabalhadores candangos durante a construção de Brasília, Clara Ianni revela as contradições entre discurso e prática, projeto e realidade, monumento e ruína, que pautam o projeto de ocupação e de poder de Brasília.

 

Único trabalho a deslocar o eixo geográfico deste mapeamento, Myth of Modernity, de Chulayarnnon Siriphol, investiga o impacto do modernismo na cultura tailandesa. A partir de efeitos especiais e de uma narrativa construída como ficção cientifica, o artista analisa como algumas estruturas de poder se perpetuam ao longo da história, por meio, inclusive, da arquitetura imposta pelo Estado.

 

Portanto, Quem não luta está morto busca traçar possíveis relações entre as violências impostas no processo de “invenção da América” e os problemas sociais que acometem um continente que se mantém a partir da sustentação das desigualdades.

 

* palavra de ordem entoada por militantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) e da FLM (Frente de Luta por Moradia Digna).

 

Mapeamento realizado durante os meses de junho e novembro de 2016, durante a Residência Artística Cambridge, um projeto voltado ao desenvolvimento de propostas artísticas e culturais na Ocupação Hotel Cambridge, situada na região central da cidade de São Paulo, com ênfase em práticas colaborativas, desenvolvidas em diálogo com a comunidade local e com parceiros, cuja pesquisa se relaciona com assuntos ligados ao cotidiano da ocupação, sua história e seus modos de inscrição e atuação nas dinâmicas da cidade. Por isso, todas as indagações aqui levantadas estão permeadas pelo contexto da luta por moradia. (Novembro de 2016)


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Outras conexões

Por uma estética do precário: antimonumentos e a arte de ‘desesquecer’, por Márcio Seligmann-Silva (Fórum Permanente, 2016) [port]

 

A fúria contra o estranho, por Moacir dos Anjos (Revista Zum, 2016) [port]

 

O ensino de História do Brasil: Cruzamentos possíveis entre currículo escolar e práticas artísticas, por Sabrina Moura (Fórum Permanente, 2016) [port]

Tags
política; resistência; modernidade; colonização; violência;

Zumbi Somos Nós - O Documentário (2007) | Frente 3 de Fevereiro

Documentário completo realizado pelo coletivo Frente 3 de Fevereiro.

Novo Apocalipse Recife (2015) | Ocupe Estelita

Videoclipe musical produzido pelo Movimento Ocupe Estelita.

Aqui viven genocidas (2001) | Grupo de Arte Callejero (GAC)

Conversa em Ações Artísticas e Ocupação: Perspectiva Histórica e Outros Agenciamentos (2016) | Residência Artística Cambridge

O encontro contou com a exibição do documentário "Zumbi Somos Nós" do coletivo paulistano de pesquisa e ação artística Frente 3 de Fevereiro, seguida de conversa com os convidados e público presente. Este vídeo contém apenas o registro da conversa que aconteceu após a exibição do filme.

A luta pelo direito de morar dignamente no centro (2016) | Luiz Kohara, Residência Artística Cambridge

Registro da palestra “A luta pelo direito de morar dignamente no centro: resgate histórico da disputa pela terra, as contradições e injustiças da expansão urbana e a construção da luta popular”, com Luiz Kohara, realizada pela Residência Artística Cambridge em 26/04/2016, na Ocupação Hotel Cambridge.

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