Histórias individuais e compartilhadas de uma narrativa global

Selene Wendt
publicado em 28.01.2014
última atualização 27.04.2016

A relação intricada entre histórias individuais e histórias compartilhadas revela o que pode ser descrito como uma narrativa global. Uma tentativa comum de se libertar da injustiça e da pobreza, a busca por uma existência melhor e o seusignificadose apresentam em histórias devida que fazem o estranho parecer familiar. A experiência coletiva da humanidade estabelece uma conexãopoderosa entre...


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A relação intricada entre histórias individuais e histórias compartilhadas revela o que pode ser descrito como uma narrativa global. Uma tentativa comum de se libertar da injustiça e da pobreza, a busca por uma existência melhor e o seu significado se apresentam em histórias de vida que fazem o estranho parecer familiar. A experiência coletiva da humanidade estabelece uma conexão poderosa entre trabalhos que tratam do local de um indivíduo na sociedade, no contexto maior de um mundo em constante mudança.

De narrativas claras do cotidiano às jornadas mágicas no tempo e espaço, a interconectividade de situações aparentemente desconectadas criam uma narrativa significativa que é simultaneamente fragmentada, sobreposta, mesclada, altamente acessível e completamente invisível. Essa narrativa existe tanto dentro quanto fora do espaço e do tempo, reminiscente do que Michel Foucault descreveu como "estar" em uma época de simultaneidade, de justaposição, do próximo e distante, do lado-a-lado, do disperso. Nós nos encontramos em um momento em que “nossa experiência do mundo se assemelha mais a uma rede que vai ligando pontos e se intersecta com a sua própria meada do que propriamente a uma vivência que se vai enriquecendo com o tempo.” 

Distinções de poder e hierarquia de classe são intrínsecas à rede formada pela humanidade, e o filme de Gabriel Mascaro, Doméstica, 2012, revela como noções de intimidade afetam estas estruturas de poder. Limites convencionais de intimidade são turvos e confusos, enquanto as complexidades de um equilíbrio tênue de força são reveladas e questionadas.

Cada vinheta apresenta a história de vida de uma doméstica, filmada e entrevistada pelos filhos adolescentes de seus empregadores. Um grande leque de situações se apresenta enquanto os detalhes de suas vidas criam uma trama complexa de amor, tragédia e felicidade. Há uma tentativa de familiaridade entre as domésticas e os adolescentes, que desafia a distinção entre empregador e empregado, levantando a questão incômoda: existe poder na intimidade ou a intimidade não é nada mais do que uma ilusão de poder? Cenas de babás chorando por amor, descrições que partem o coração de como foram abusadas física e emocionalmente, flashes de suas atividades diárias e algumas cenas que revelam comportamentos íntimos inapropriados, além de momentos de riso e felicidade, formam uma história de destinos e vidas entrelaçadas. 

O interesse na vida destas pessoas que são forçadas a viver longe de suas famílias assinala uma questão importante na arte contemporânea, também presente em Motherland, projeto em desenvolvimento de Sherman Ong. Motherland apresenta retratos confissionais de diversos imigrantes à Cingapura que lutam contra uma sensação de falta de raízes e desorientação. No espírito de Edward Said, o tópico do exílio inspira narrativas inovadoras que estão firmemente ancoradas em um tipo específico de "contar histórias" relacionado a narrativas de deslocamento e perda.

Ganhando interesse entre artistas contemporâneos, as consequências do deslocamento também são exemplificadas no trabalho de Maria Magdalena Campos-Pons, que frequentemente investiga as implicações da permanência versus a migração. Seu trabalho é cuidadosamente tecido com base nos lindos, mas frequentemente esfarrapados fios do dia-a-dia. Experiência pessoal, história, religião, política e identidade cultural são parte de uma trama complicada. Em 53+1=54+1=55 Letter of the Year, criada para a 55ª Bienal de Veneza, a beleza do que acontece naturalmente nas ruas se contrapõe ao estilo documental das histórias pessoais, dos sonhos, esperanças e memórias apresentados nas vinhetas de vídeo. Este trabalho sugere que o dilema existencial de se sentir preso não está limitado especificamente àqueles que foram deixados para trás, e se estende também àqueles que deixaram suas famílias e/ou terra natal para trás, como demonstrado de maneira poderosa tanto no trabalho de Mascaro quanto no de Ong. 

Voltando aos anos 1970, Sympathy for the Devil, 2011, de Claudia Joskowicz, conta a história do encontro diário entre um refugiado polonês/judeu que chegou na Bolívia durante a Segunda Guerra Mundial e seu vizinho do andar de cima, o ex-Nazista Klaus Barbie, evocando uma forte sensação da complicada política de deslocamento. Sua abordagem nos encoraja a refletir sobre a especificidade de nossas experiências pessoais em um contexto histórico mais amplo. Joskowicz descreve o trabalho como um reflexo no espaço e sua influência na dimensão social humana, novamente trazendo Foucault à mente. O efeito de longo-prazo da história e suas implicações nos acontecimentos do presente, e o constante vai-vem dos dois fica bastante evidente.

Retornando ao contexto contemporâneo, o trabalho de Virginia de Medeiros, Sergio e Simone, 2010, conta a história de um travesti que, após uma overdose de crack, encontra Deus, retorna para casa e para sua família, desiste de ser travesti e volta a ser Sergio. As duas personas são apresentadas uma em contraposição à outra, em uma história de vida incrível com uma narrativa visual tocante. O impacto do trabalho de Virginia de Medeiros está em sua capacidade de capturar uma sensação de familiaridade no estranho, de um ponto de vista quase antropológico. 

Repetidamente, cenas do dia-a-dia revelam as histórias de interconectividade humana, conforme visto em Rabeca, 2012, de Caetano Dias. Caetano evoca uma visão do Brasil rural quase pictórica, em uma narrativa expressa através de imagens e música, trazendo à mente o filme Janaúba, 2012, de Eder Santos. A beleza lenta, quase dolorida de ambos, Rabeca e Janaúba, vistos como jornadas assustadoras através do hostil interior de Minas Gerais, onde perguntas existenciais perduram na poeira, reminiscentes do famoso livro Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.

Santos cria trabalhos vibrantes e poéticos que misturam experiência pessoal, observação cultural e proficiência técnica como meio de expressar temas que são especificamente brasileiros mas também globalmente relevantes. Com talento para evocar o ritmo e as texturas da memória e da história, ele entende o poder das imagens em movimento para contar histórias que merecem ser contadas e recontadas. Janaúba é inspirado tanto pela poesia e literatura quanto por “histórias de vida”. Isso também acontece com trabalhos de seus colegas, artistas brasileiros, como Cao Guimarães, Pablo Lobato e Guilherme Vaz, entre outros. Estes artistas compartilham uma habilidade única para transformar histórias de vida em narrativas visuais que enfatizam as conexões da humanidade.

Walter Benjamin escreveu que, “Todos os grandes contadores de história têm em comum a liberdade com que sobem e descem os degraus de sua experiência, como em uma escada.” Estes artistas vêm e vão, sobem e descem, aqui e lá, navegando constantemente na paisagem de suas mentes, enraizadas no local, como o universo. Influenciados pela memória, formados pela história e guiados por sonhos, estes artistas traduzem histórias de vida em uma rica linguagem visual sem limites geográficos.

(fevereiro 2014)


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Selene Wendt


Curadora independente e fundadora do The Global Art Project, uma plataforma profissional para comunicação, desenvolvimento e apresentação da arte contemporânea internacional para além das fronteiras geográficas. Fez a curadoria de inúmeras exposições internacionais e escreve freqüentemente para catálogos e publicações em todo o mundo. Entre outros projetos, está desenvolvendo uma adaptação de The Storytellers: Narratives in International Contemporary Art para o Brasil.

 

Outras conexões

Illuminations (1936), por Walter Benjamin. [eng]

Reflections on Exile and Other Essays, por Edward Said. [eng]

Grande Sertão: Veredas (1994), por João Guimarães Rosa. [pt]

Site da plataforma The Global Art Project. [eng]

Tags
poder; jornada; relações sociais; exílio; política; global; conectividade; deslocamento; intimidade; imigração; cotidiano; travesti; história; narrativa; memória;

Janaúba (1993) | Eder Santos

Artist Breakfast with Maria Magdalena Campos-Pons

A artista cubana Maria Magdalena Campos-Pons comenta sua obra para a 55ª Bienal de Veneza (2013),  

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