"Blood Earth (Terra Sangrenta) trata da presença de mineradoras em terras habitadas por povos indígenas e das mudanças inerentes à música e ao movimento de resistência à mineração.
O trabalho faz parte de um projeto maior do Word Sound Power, um grupo de Nova Deli que colabora com artistas do Sul da Ásia em trabalhos ligados à justiça social. Até agora, o projeto gerou incluem músicas, uma exposição, encontros/debates e o vídeo Blood Earth. Os fundadores do projeto são o vocalista Taru Dalmia (também conhecido como Delhi Sultanate) e o produtor musical Chris McGuinness. Eu já tinha conversado com eles sobre sua música, porque eu trabalhava no rádio, e eles ouviram falar do meu filme e do meu trabalho com arte, então me convidaram para participar do projeto.
A intenção deles era passar um tempo em Kucheipadar, uma vila Adivasi (indígena) em Odisha, no leste da Índia, onde houve resistência às tentativas de mineração de bauxita, usada para fabricar alumínio. A resistência, que também envolveu música, atraiu muita gente de fora da vila, de várias regiões do estado e do país – em sua maioria ativistas e jornalistas – e através desta rede de pessoas Taru e Chris ouviram falar de Kucheipadar. Em nossa pesquisa antes de irmos até lá, procuramos pessoas que tivessem vivido lá e lemos tudo o que foi publicado sobre a região.
Durante o período em que trabalhamos no projeto, a resistência era mínima, a presença da mina havia se consolidado ainda mais e novos tipos de relação se formavam entre as pessoas da região e a empresa de mineração. O vídeo retrata isso na forma de músicas sendo esquecidas, ou sendo tocadas de modo diferente de quando o movimento contra a empresa estava no auge. Embora muitas pessoas da região tenham aceitado a presença da empresa, certos problemas persistem. Prova disso é o fato de que o agricultor, cantor e líder Bhagwan Mahji, que aparece em Blood Earth, passou alguns meses preso este ano.
A relação entre mineradoras e comunidades indígenas é bem conhecida no mundo todo e as narrativas destas situações são frequentemente compreendidas em termos éticos. Me pareceu importante não tirar conclusões precipitadas sobre certo e errado e levar em conta a complexidade das relações durante o tempo que passamos lá. Ao levar em consideração o que constitui o valor em nosso trabalho, o que pode incluir tomadas e combinações delas que normalmente seriam consideradas ‘ruins’ em termos cinematográficos tradicionais, houve uma aceitação de que essas complexidades não podem, ou não precisam, ser apresentadas em um pacote imaculado e facilmente digerível.
Certos diálogos e conversas constituem a vídeo-obra em si, como uma rede micropolítica entre as pessoas de Kucheipadar e sua relação com suas músicas, com ativistas que estiveram lá antes, com os representantes da mineradora e, é claro, conosco. Através do diálogo e da colaboração, temos relacionado a vídeo-obra ao projeto maior – sozinhas, obras individuais não transmitem o sentido da situação mais do que a realidade o faz, mas quando o vídeo, a música e o debate têm a oportunidade de interagir em plataformas compartilhadas, aumenta a familiaridade da situação da qual se fala e destas situações no geral."
Kush Badhwar em depoimento à PLATAFORM:VB (julho 2015)